sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O que fazer para envolver a sociedade neste debate?

Rodrigo Lara Mesquita comentou em: 05/04/2008 16:59

O final do império da educação (reflexões sobre o projeto UCA)

Abaixo, uma proposta de conversa sobre a questão educação, computadores, conectividade, professores, governos e staus quo a partir de extratos de uma palestra (veja a íntegra neste link) de Seymour Papert no Imperial Gollege, de Londres em junho de 1998, quando ele estava lançando o livro Connected Fammily.

Papert, junto com outros educadores, foi um dos pilares do Media Lab, o laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que foi criado há quase 30 anos por Nicholas Negroponte e Jerome B. Wiesner para estudar os impactos das convergências das mídias, em função da evolução das tecnologias de informação, sobre a sociedade contemporânea. Trabalhando para Inventing a Better Future .

Em janeiro de 2005, Nicholas Negroponte anunciou em Davos o projeto de educação sem fins lucrativos One Laptop per Child, que sustentado por um laptop de baixo custo, uma rede de comunicação distribuída, um sistema operacional aberto e aplicativos desenvolvidos para a construção do conhecimento contribuído, foi apresentado como proposta de plataforma para a educação na era da Sociedade do Conhecimento.

Em julho de 2005, Papert acompanhou Nicholas Negroponte na visita feita ao governo brasileiro para propor a entrada no projeto piloto como líder do processo e se preparasse para exportar educação - software e conteúdo (inteligência). De lá para cá, a indústria

de hardware entrou globalmente no processo investindo em máquinas de baixo custo e o governo brasileiro acabou abrindo uma concorrência para definir que equipamento seria adquirido. Apesar de o governo brasileiro ter criado o projeto Um Computador por Aluno, UCA, não propôs ao País o início de uma profunda reforma no nosso sitema de educação com o objetivo de prepararmo-nos com objetividade e seriedade para a Sociedade do Conhecimento. Não trouxe este debate para a sociedade.

A mídia tradicional também não contribuiu para levantar a questão. Vem cobrindo este processo desde o início como uma disputa de mercado de computadores e não como um projeto de educação. A mídia tradicional não considera que o sistema de educação da era industrial está falido.

A licitação não foi vencida pelo projeto One Laptop per Child. Ganhou uma das máquinas de empresas do mercado. OLPC ainda não conseguiu chegar no preço que se propôs - U$ 100. A licitação rezava vantagens para quem montasse a máquina no Brasil. A licitação foi suspensa. Será reaberta nos próximos 45 dias. OLPC, apesar de considerar que os ganhos para a sociedade estava e está em investir em software + conteúdo/processo (inteligência), anunciou que fará o "assembly" aqui para ter as mesmas vantagens fiscais que os representantes da iniciativa privada.

Nicholas Negroponte, que mantém o título de chairman emérito do Media Lab, e sua equipe saíram do lanoratório de mídia e fundaram a entidade sem fins lucrativos One Laptop per Child. Os consumidores, a sociedade, foram beneficiados pelo movimento da indústria de hardware que deixou de olhar exclusivamente para o segmento de mercado que podia pagar entre 1.500/2. 000 reais por um computador.

O movimento do fundador do Media Lab trouxe alguma perspectiva para de mais 6 bilhões de seres humanos excluídos. Seymour Papert e suas idéias são parte dos fundamentos desta história.

Mas e a Educação? Como fica? Abaixo, os extratos da palestra de Papert, que há 10 anos já estava mergulhado nesta questão fundamental para o nosso desenvolvimento. A sua participação com comentários, críticas, sugestões e opiniões é muito bem vinda.

1- Vamos analisar, por um minuto, por que assumimos que nas escolas – porém apenas nas escolas – seja natural que crianças de sete anos devem ser colocadas em uma sala, e as de oito anos em outra. Se eu sugerisse que vocês fossem separados por idade, tenho certeza que dariam risada da minha sugestão ou a ignorariam completamente. Provavelmente pensariam que estou mais maluco que o habitual. No entanto, por que fazemos isto nas escolas?

2- Além da separação por idade, acredito que a noção de currículo linear é, em si, outra manifestação da organização baseada na linha de produção. Quando a criança passar pela escola no dia 7 de maio da terceira série aprenderá isto; no dia 9 de abril da quinta série aprenderá aquilo; e assim por diante. No fundo, já está tudo arranjado. Na prática, contudo, não é tão rígido assim. Mas em princípio, a forma que as escolas organizam a distribuição de conhecimento segue este modelo de linha de produção. Vou atribuir isto às mesmas causas. Mas também vou argumentar que para tirarmos proveito dos novos caminhos de aprendizado abertos pela tecnologia digital, seremos obrigados a abrir mão da modalidade de currículo linear para distribuição do conhecimento. Seremos obrigados a fazê-lo, porque na minha opinião a grande diferença entre a forma que a educação aconteceu até hoje e a forma que acontecerá no futuro é captada pelo título desta minha palestra: "Child Power".

3- Acredito que exista apenas uma razão. Acredito que isto seja a organização de linha de produção do produto da escola. Não é diferente da linha de produção que Henry Ford criou para sua fábrica de automóveis: o veículo se movia lentamente, e a cada posto da linha de produção uma alteração a mais era feita, uma peça era acrescentada, algo era verificado, um exame era ministrado. Acredito que este modelo de educação foi adequado para uma época anterior, por vários motivos. O primeiro deles é que não conhecíamos outra forma de fazê-lo. Vou aprofundar-me um pouco neste assunto, falando de como podemos fazer as coisas bem diferentes, porque temos outra tecnologia do conhecimento hoje em dia.


4- Não é mais defensável o modelo que impõe que devemos aprender, enquanto estivermos na escola, enquanto formos jovens, as habilidades que usaremos em toda a nossa vida. Não serão mais aplicáveis as habilidades que aprendemos enquanto estamos na escola. Serão obsoletas antes mesmo de chegarmos ao mercado de trabalho. Todas, exceto uma. A única habilidade que nos torna realmente competitivos é nossa capacidade de aprender. Não é a habilidade de dar a resposta certa às perguntas que foram feitas na escola. É a habilidade de dar a resposta certa às situações que estão além daquilo que aprendemos na escola. Precisamos produzir pessoas que saibam como agir quando enfrentarem situações para as quais não estão especialmente preparadas.

5- As crianças já vêem isto; elas acham que as escolas são irrelevantes. Acreditam que o ritmo da escola e a cultura escolar está totalmente fora de sintonia com a sociedade na qual vivem. E assim, cada vez fica mais difícil convencê-los que a escola satisfaz suas necessidades, que a escola é a ponte para o século 21, conforme nossos líderes políticos insistem em dizer.

6- Naquela época – início dos anos 80 – vimos algums exemplos maravilhosos de professores que usavam computadores muito primitivos com grande sucesso. Faziam coisas extremamente criativas, nas quais as crianças realizavam projetos que iam além do currículo escolar, abrangiam matemática, ciências, inglês, história. Combinavam tudo isto e produziam um produto que, como todos os produtos que exigiam esforço humano, se baseavam não apenas em uma disciplina, mas no conjunto delas.

7- Invés de o computador ser uma ferramenta multi-disciplinar, foi confinado à sala de informática, uma matéria em si, fora do contexto do ambiente de aprendizado. Agora temos um professor especializado em informática. Existe até um currículo para o estudo de computador e da informática. O sistema já normalizou o computador; ele está domado. E esta não é a única forma de ele ser domado.

8- O grupo de jovens que nasceu e cresceu com a presença do computador ainda não atingiu as escolas com força total. Mas acontecerá em breve, e quando isto acontecer, prevejo, veremos dentro das salas de aula uma pressão irresistível para que a estrutura, o conteúdo e a natureza das escolas sejam mudadas.

9- Agora, contudo, estamos frente a uma situação na qual temos mais do que argumentos filosóficos. Temos um exército. É um exército de crianças, jovens que chegam às escolas com uma melhor imagem do aprendizado e com o conhecimento técnico para implementar esta melhor imagem da aprendizagem, que dá força aos argumentos de Dewey, que na época eram fracos, sem garra e, no final, ineficazes.

10- Parte da aprendizagem é obter informações. Uma pessoa fica em pé na frente de uma sala de aula, discursa e as informações de alguma forma fluem para a cabeça das pessoas – ou pelo menos é o que se afirma. Mas isto é apenas parte da educação. A outra parte, ou ala, que Dewey teria enfatizado, tem a ver com fazer coisas, criar coisas, construir coisas. Contudo, em nossos sistemas escolares, assim como na imagem popular da educação, o lado informacional é dominante.

11- As pessoas começam a falar sobre como encontrar o melhor professor do mundo, como colocar esta pessoa na internet, de forma que todo estudante possa ter o melhor professor. Talvez tenha de ser assim, mas não acredito que esta seja a forma que a tecnologia mudará o ambiente de aprendizado. Acredito que será mais da forma que aconteceu comigo, com o computador do Minsky. Existia um problema demasiado difícil, complexo e trabalhoso, para o qual subitamente encontrei a solução. O objetivo da minha vida – que se tornou minha principal atividade nos últimos 10 anos – tem especialmente sido encontrar maneiras de as crianças poderem usar esta tecnologia como um meio construtivo de fazer coisas que nenhuma criança poderia fazer antes, fazer coisas complexas que não eram acessíveis a crianças anteriormente.

E assim, vou dar um simples exemplo: trabalhei com a empresa Lego, para criar um pequeno computador. Este poderia ser colocado dentro de uma estrutura criada com os blocos da Lego, poderia ser conectado a sensores e a um motor. As crianças poderiam construir um pequeno dispositivo que poderia seguir uma luz. Também poderia ser construído um outro dispositivo, programado para emitir um som. Poderia ainda – e já vi crianças fazendo isto – construir um instrumento musical, com um controle para aumetar e diminuir o som. Poderiam ser construídos outros controles, para produzir som continuamente ou apenas algumas notas. E assim por diante. Conforme a criança constroe este pequeno instrumento musical, ela se depara com um problema, que cria outro, e assim por diante. Aos poucos a criança vai se aprofundando em questões de física e matemática, apreciação e história da música, e, acima de tudo, a gestão de um projeto cada vez mais complexo. Falo de crianças, porque de fato acredito que crianças de sete e oito anos são capazes de desenvolver este tipo de projeto.

12- E assim, vejo a mega-mudança ocorrendo. Mas esta mega-mudança exige que pensemos mais claramente sobre a natureza da escola, para reconhecer os lados informacionais e construcionais, para pensar mais claramente sobre tecnologia, para reconhecer os dois lados, para pensar em como são relacionados, para pensar em termos de sistema, sobre o aprendizado como uma atividade, como um ambiente evolui, para ter coragem de tomarmos ciência que estamos vivendo em um sistema educacional inconsistente. Existem escolas nos sistemas educacionais que são inconsistentes com o cenário tecnológico, intelectual e social do século 21. Não responderemos a esta pergunta sendo submetidos a testes, crianças sendo testadas sobre o conhecimento do século 19. Ao fazer isto, estamos construindo uma ponte para o século 19. Não estamos abrindo uma porta para o século 21.

O que fazer para envolver a sociedade neste debate?

2 comentários:

  1. Denise Vilardo comentou em: 07/04/2008 12:47

    O que fazer para envolver a sociedade neste debate?

    Enquanto parte da sociedade - a que detém o poder de decidir - estiver satisfeita, compreendendo que a Educação realizada nas escolas que os seus filhos freqüentam está atendendo aos seus anseios, dificilmente haverá alguma mudança.

    Enquanto as pessoas acreditarem que está tudo certo "porque a vaga do meu filho no vestibular está garantida, porque ele freqüenta um bom colégio", dificilmente haverá mudança.

    Enquanto estivermos preocupados em saber qual é o melhor colégio do país, baseados em resultados do ENEM - onde se comparam colégios que têm todas as excelentes condições de trabalho, com os colégios que têm nenhuma condição - dificilmente haverá mudança.

    Porque só quem sente a necessidade de discutir e mudar é quem está sendo desrespeitado em seu direito de aprender. Mas, mesmo as pessoas que se enquadram nessa perspectiva, não se vêem merecedoras de alguma mudança, porque se vêem burras e sem condições de aprender, porque até isso foi incutido em suas mentes.

    É preciso construir uma "consciência de possibilidade".

    Possibilidade de mudar, de aprender, de participar, de acreditar em si mesmo...

    A parte da sociedade que decide só se envolverá nesse debate quando se sentir incomodada e, por enquanto, não há incômodo, há acomodação por parte de alguns e desconhecimento por parte de muitos.

    Um grande abraço a todos!

    Denise

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  2. Paulo Drummond comentou em: 08/04/2008 03:31

    é difícil contrapor...

    É muito difícil contrapor alguma coisa às colocações de Papert. De fato, o que ele escreveu há dez anos continua válido hoje. No meu entender, continuará válido até que um projeto como o UCA "caia" como uma colcha nova sobre a velha cama, onde ainda deitam-se muitos descansados e satisfeitos com o status quo.


    A verdadeira revolução ainda não começou, mas é possível enxergar tênues sinais de insatisfação. A percepção da mudança se dará quando o sucesso do projeto estiver consagrado. Aí a revolução terá começado.


    Concordo integralmente com os três primeiros parágrafos que a Denise escreveu aí em cima. Temos, inegavelmente uma cultura imitativa, muito mais que inovadora. Somos muito mais seguidores que pensadores críticos. O que eu espero é que, depois do retumbante sucesso do UCA, a geração que ainda não nasceu tenha um percentual maior de gente disposta a pensar, sem necessariamente seguir e mais gente disposta a inovar, sem necessariamente copiar. Essa geração será a dos filhos do UCA; filhos daqueles que ajudaram a mudar o que Papert combateu por escrito.

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