Denise Vilardo comentou em: 07/05/2008 17:29
Um computador por criança
Governo Federal estuda o uso de laptops de baixo custo que poderão ser distribuídos a cada aluno da rede pública. É esperar para ver
Por: Áurea Lopes
Massificar o uso do computador na educação no mundo inteiro. Empenhada em atingir essa meta, a organização OLPC (sigla em inglês para One Laptop per Child, que significa "um computador por criança") desenvolveu - e está aperfeiçoando - um notebook de baixo custo, que dentro de um ano deve ser comercializado por US$ 100. A OLPC é formada por cientistas do Media Lab, laboratório ligado ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos.

O XO, comparado a um notebook convencional, parece um brinquedo. Nas mãos de um adulto, a digitação fica um pouco complicada...
Senhoras e senhores, o XO!

O XO, comparado a um notebook convencional, parece um brinquedo. Nas mãos de um adulto, a digitação fica um pouco complicada...
Esse pequeno computador tem processador equivalente ao de um Pentium II; memória RAM de 128 MB; interface gráfica Sugar, em software livre; editor de páginas Fácil; um browser simples e câmera embutida. Não pode armazenar dados e nem roda CD ROM, mas tem quatro saídas USB (para conectar periféricos como scanner, impressora, etc.), o que também permite que a produção do aluno seja transmitida ao computador da escola, armazenada em um servidor ou até mesmo publicada em uma página virtual. Nesse protótipo, o acesso à internet é discado e, portanto, requer uma linha telefônica na escola. Porém, existe ainda a possibilidade de existir uma versão wireless (sem fio). No início das discussões, houve a proposta de que o XO fosse movido a manivela. Isso mesmo: manivela. A idéia (que não foi em frente) era de que o aparelho pudesse ser usado em regiões em que não há energia elétrica.
O equipamento, denominado a princípio de XO, tem hardware e software pensados para utilização específica no processo de aprendizagem e será vendido apenas a governos dos países, em uma iniciativa que pretende impulsionar a inclusão digital em escala. Por isso, nem adianta procurar o pequeno laptop em lojas. Ele será um equipamento de uso exclusivo dos estudantes. Cada um - em especial, das camadas sociais mais pobres - deve ter, na sala de aula ou em casa, "uma janela para o mundo, uma poderosa ferramenta de estudo", segundo diretrizes do projeto da OLPC. A idéia já foi aprovada pela Organização das Nações Unidas e conquistou o apoio de países como Argentina, China, Egito, Nigéria, Tailândia - além do Brasil. Por aqui, o primeiro protótipo foi entregue no dia 24 de novembro ao presidente Lula pelo pesquisador Nicholas Negroponte, do MIT.
Avaliar para usar
Assim que anunciou sua adesão ao projeto, em junho de 2005, o governo brasileiro criou um grupo interministerial para acompanhar o assunto. Para a assessoria técnica, foi composta uma equipe com especialistas do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI), da Universidade de São Paulo (USP); da Fundação Certi-Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); e do Centro de Pesquisas Renato Archer (Cenpra), do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Depois de participar de discussões técnicas e pedagógicas no Media Lab, agora esses institutos iniciarão testes com as primeiras 50 unidades que já chegaram ao país, e estão aguardando liberação da alfândega. "Convidamos professores e alunos para participar de uma simulação de ambiente de sala de aula. Serão realizados testes exaustivos, da adequação dos softwares à resistência física do equipamento. Vamos até deixar o notebook cair no chão!", brinca Roseli Lopes, professora da Escola Politécnica da USP e integrante da equipe.
Os resultados dos primeiros testes serão repassados à OLPC e ao fabricante dos equipamentos, a empresa Quanta Computers, de Taiwan. Feitos os ajustes, o Brasil receberá mais um lote, dessa vez de mil laptops, para uma nova etapa de experimentação na rede pública de ensino. "Eles vão servir para um exercício de aplicação em escala, no ambiente real. Ainda não há definição, mas provavelmente serão escolhidas duas ou três escolas para que todos os alunos recebam um notebook e possamos avaliar o impacto dessa tecnologia na comunidade escolar", explica Roseli.
O computador de US$ 100 da OLPC já tem concorrentes no mercado. Nos mesmos moldes tecnológicos e sob a mesma orientação pedagógica já estão sendo desenvolvidos o ClassMate PC, pela Intel, e o Cowboy, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Proposta construtivista
Cores vibrantes, formas arredondadas, dimensões pequenas, peso de um quilo e meio, tela giratória para permitir desviar dos reflexos da luz e alça para carregar. Apesar do visual atraente, que lembra um brinquedo, especialistas acreditam que o laptop XO apresenta uma proposta revolucionária em termos de tecnologia educacional. "O projeto foi desenvolvido a partir de uma visão construtivista", analisa, entusiasmada, a psicóloga e educadora Léa Fagundes, coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O computador deve ser usado inicialmente por estudantes do Ensino Fundamental. Um aplicativo precioso do ponto de vista educacional é o Squeak, programa com linguagem orientada a objetos. "Com esse recurso, a criança inventa, cria, constrói conteúdos", conta Léa. Outro destaque é a rede Mesh, por meio da qual os computadores se conectam uns com os outros, num raio aproximado de 100m. Assim, os estudantes podem se comunicar de suas casas com a escola, ou com os colegas que moram perto, formando uma rede local.
Léa explica que o laptop XO tem tudo para estimular a criatividade e o aprendizado: "O caminho é esse, fornecer ferramentas que façam pensar. E não criar consumidores de joguinhos ou usar a tecnologia para manter modelos antigos, de equipamentos que rodam CD ROM de apostilas. As crianças podem e devem inventar seus próprios jogos, criar os aplicativos necessários para alcançar seus objetivos de estudo."
Na opinião da especialista, "esta é a chance para o Brasil mudar o paradigma da educação". Desde que, acrescenta, a tecnologia venha acompanhada de visão pedagógica, apoio curricular e avanços na gestão do processo educacional. "Os professores precisam receber uma formação para saber usar da forma mais produtiva esse computador", conclui Léa. Segundo a educadora argentina Emilia Ferreiro, o computador não precisa ser de ultima geração ou ter várias ferramentas para que seu uso na escola seja produtivo. Ela explica que com um simples editor de textos, por exemplo, a criança pode escrever, revisar sua produção e tem a facilidade de mudar a ordem das frases ou substituir palavras, tarefas um tanto incômodas se feitas a mão, no molde "escrever e passar a limpo" (leia mais sobre o que diz Emilia Ferreiro a respeito do uso das novas tecnologias em uma entrevista exclusiva concedida a Nova Escola).
Algumas dúvidas
Durante a fase de testes do XO, nos institutos científicos ligados ao projeto, dentro do governo brasileiro, e nas escolas selecionadas para o projeto piloto, serão verificados alguns pontos que estão sendo questionados - como os tamanhos do teclado e da tela, bastante pequenos para adultos, mas que precisam ser experimentados por crianças. Outra questão levantada é que os laptops seriam alvo fácil para roubos e furtos, comprometendo a segurança das crianças. Porém, segundo os pesquisadores, além de o produto não poder ser comercializado - o que tornaria visível seu uso indevido -, existe a possibilidade de fazer uma programação que faz o rastreamento do equipamento. Ao final das etapas de testes, a OLPC vai encaminhar os ajustes sugeridos para o fabricante do XO. Enquanto isso não acontece, resta aguardar. Se tudo for como o esperado, em breve as suas aulas e as lições de casa da sua turma podem não ser mais só entregues em papel...
Fonte: Revista Nova Escola - 15 de dezembro de 2006
http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/repsemanal_204398.shtml
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