sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Para as crianças, as escolas são irrelevantes

Rodrigo Lara Mesquita comentou em: 08/04/2008 09:42

Nossas crianças na linha de produção. Isso faz sentido? Qual a sua opinião?

Vídeo do Youtube - Modern Times - trailer


Vamos analisar, por um minuto, por que assumimos que nas escolas – porém apenas nas escolas – seja natural que crianças de sete anos devem ser colocadas em uma sala, e as de oito anos em outra. Se eu sugerisse que vocês fossem separados por idade, tenho certeza que dariam risada da minha sugestão ou a ignorariam completamente. Provavelmente pensariam que estou mais maluco que o habitual. No entanto, por que fazemos isto nas escolas?

A análise é do educador Seymour Papert. Na sua opinião, isso faz sentido? Separar seres humanos por idade para atingir qualquer tipo de objetivo?

Além da separação por idade, acredito que a noção de currículo linear é, em si, outra manifestação da organização baseada na linha de produção. Quando a criança passar pela escola no dia 7 de maio da terceira série aprenderá isto; no dia 9 de abril da quinta série aprenderá aquilo; e assim por diante. No fundo, já está tudo arranjado. Na prática, contudo, não é tão rígido assim. Mas em princípio, a forma que as escolas organizam a distribuição de conhecimento segue este modelo de linha de produção. Vou atribuir isto às mesmas causas. Mas também vou argumentar que para tirarmos proveito dos novos caminhos de aprendizado abertos pela tecnologia digital, seremos obrigados a abrir mão da modalidade de currículo linear para distribuição do conhecimento. Seremos obrigados a fazê-lo, porque na minha opinião a grande diferença entre a forma que a educação aconteceu até hoje e a forma que acontecerá no futuro é captada pelo título desta minha palestra: "Child Power".

É de novo do Papert. Como você vê esta questão nesta época da comunicação em rede?

9 comentários:

  1. Mario Brandao comentou em: 08/04/2008 09:57

    Chegou o tempo de abandonarmos os chavões

    Sou presidente da ABCID, que representa as Lan House. São sem nenhuma dúvida centros de inclusão digital. Não é só a garotada que as utilizam. Uma enorme variedade de empresários. Apesar disso na imprensa tradicional somos vistoS quAse como um problema. É tempo de olharmos para a frente e aproveitarmos a oportuniadde que a rede traz para todos nós.

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  2. Rodrigo Lara Mesquita comentou em: 10/04/2008 01:22

    Para as crianças, as escolas são irrelevantes

    Meu caro Mário, ninguém poderia fazer um comentário mais objetivo do que o seu. Você tem um batalhão de empreendedores embaixo da ABCID e os jornalistas dos jornais, rádios e tvs, que na melhor das hipóteses têm algum medo da mídia social, cobrindo este processo. É mais fácil cobrir ou dar destaque para o acidente do que o serviço que vocês estão pretando para todos nós. Como diria o meu teórioco de plantão, o McLuhan, "há uma excelente razão pela qual a maioria das pessoas prefere viver na era imediatamente anterior a elas: é mais seguro. Viver na vanguarda das coisas, na fronteira das mudanças, é algo apavorante."

    Faço de novo a pergunta: faz sentido prepararmos as nossas crianças para o futuro replicando na educação deles a linha de produção da era industrial?

    Tenho as minhas certezas, mas não tenho a história nem a quilometragem rodada neste assunto do educador - Seymour Papert - que roubei as idéias para abrir este fórum. Por isso, mais uma vez copio abaixo as reflexões dele sobre a hipótese deste fórum, que é dele.

    Acredito que exista apenas uma razão. Acredito que isto seja a organização de linha de produção do produto da escola. Não é diferente da linha de produção que Henry Ford criou para sua fábrica de automóveis: o veículo se movia lentamente, e a cada posto da linha de produção uma alteração a mais era feita, uma peça era acrescentada, algo era verificado, um exame era ministrado. Acredito que este modelo de educação foi adequado para uma época anterior, por vários motivos. O primeiro deles é que não conhecíamos outra forma de fazê-lo. Vou aprofundar-me um pouco neste assunto, falando de como podemos fazer as coisas bem diferentes, porque temos outra tecnologia do conhecimento hoje em dia.


    Não é mais defensável o modelo que impõe que devemos aprender, enquanto estivermos na escola, enquanto formos jovens, as habilidades que usaremos em toda a nossa vida. Não serão mais aplicáveis as habilidades que aprendemos enquanto estamos na escola. Serão obsoletas antes mesmo de chegarmos ao mercado de trabalho. Todas, exceto uma. A única habilidade que nos torna realmente competitivos é nossa capacidade de aprender. Não é a habilidade de dar a resposta certa às perguntas que foram feitas na escola. É a habilidade de dar a resposta certa às situações que estão além daquilo que aprendemos na escola. Precisamos produzir pessoas que saibam como agir quando enfrentarem situações para as quais não estão especialmente preparadas.

    As crianças já vêem isto; elas acham que as escolas são irrelevantes. Acreditam que o ritmo da escola e a cultura escolar está totalmente fora de sintonia com a sociedade na qual vivem. E assim, cada vez fica mais difícil convencê-los que a escola satisfaz suas necessidades, que a escola é a ponte para o século 21, conforme nossos líderes políticos insistem em dizer.
    São extratos de uma palestra brilhante deste educador há dez anos atrás. A íntegra, em português, está neste link.

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  3. Denise Vilardo comentou em: 10/04/2008 23:58

    Tentando responder um pouco...

    Faço de novo a pergunta: faz sentido prepararmos as nossas crianças para o futuro replicando na educação deles a linha de produção da era industrial?

    Acho que é bom momento para recuperarmos um pouco a idéia original da escola-instituição.

    A escola surge de uma necessidade de difundir a ciência para o povo, e é o resultado de todo um processo de lutas intensas entre a burguesia progressista (em torno do sec XIV) e o feudalismo já decadente, que com as suas “verdades inquestionáveis”, impedia o desenvolvimento da sociedade.

    “Logo, a escola pública, gratuita, laica e para todos é uma bandeira política profundamente comprometida com interesses de classes. Há pouco mais de 200 anos – se tomarmos como marco a Revolução Francesa – a burguesia representava o novo e o progresso. Dessa forma, o currículo e o modelo de escola por ela propostos eram revolucionários, porque estavam a serviço da estruturação e da reprodução da nova forma de vida e de organização da produção.” (Hildo Montysuma)

    Mas, e hoje?

    Será que a sociedade em que vivemos é progressista, ou pretende ser? Devemos continuar a reproduzir os modelos, ou já é hora de começarmos a transformá-los?

    A escola é isso. Nesse momento, meramente reprodutora da sociedade existente, e na qual despeja diariamente pessoas “adequadas” a ela.

    Se concordamos com essa maneira de continuar fazendo as coisas, então não há motivos para tentarmos alguma mudança e a linha de produção continua servindo muito bem.

    Mas, se acreditamos que esse modelo está decadente, não está mais respondendo às necessidades de criação de uma nova organização social, então temos que rever o sentido da escola. Precisamos de uma escola transformadora, em que não há espaço para preparar “alunos em série”. E também não há mais espaço para currículos pré-formatados.

    Há a necessidade de reorganização de todo o processo curricular, com a definição de pontos de partida, e tendo clareza de que os pontos de chegada são imprevisíveis.

    Um grande abraço!

    Denise

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  4. Denise Vilardo comentou em: 11/04/2008 02:01

    Avançando no papo...

    (...) o veículo se movia lentamente, e a cada posto da linha de produção uma alteração a mais era feita, uma peça era acrescentada, algo era verificado, um exame era ministrado. Acredito que este modelo de educação foi adequado para uma época anterior, por vários motivos. O primeiro deles é que não conhecíamos outra forma de fazê-lo.

    É porque acreditava-se que, baseado no pensamento linear, cartesiano, o conhecimento se dava de maneira cumulativa, com pré-requisitos para que ocorresse a aprendizagem. As disciplinas ficavam fatiadas e não se comunicavam e os conteúdos deveriam ser apresentados dos mais simples, para os mais complexos – em ordem temporal e de aprofundamento.

    E as escolhas sobre quais seriam as disciplinas e como os conteúdos deveriam ser organizados (em que ordem) sempre foram arbitrárias, ou seja, foram sempre decididas por pessoas que tinham que apresentar uma proposta para ser oficializada e seguida pelos sistemas de ensino.

    Hoje, já sabemos que os diferentes campos do conhecimento devem interagir e que a aprendizagem se dá de maneira não-linear. Os comandos são do campo da significação e dos sentidos.

    A única habilidade que nos torna realmente competitivos é nossa capacidade de aprender. Não é a habilidade de dar a resposta certa às perguntas que foram feitas na escola. É a habilidade de dar a resposta certa às situações que estão além daquilo que aprendemos na escola. Precisamos produzir pessoas que saibam como agir quando enfrentarem situações para as quais não estão especialmente preparadas.

    É por isso que as escolas realmente verdadeiras e comprometidas com a aprendizagem de seus alunos deveriam anunciar em faixas e outdoors, algo do tipo: “Aqui preparamos para o fracasso!”... (rsrsrs)

    As crianças já vêem isto; elas acham que as escolas são irrelevantes. Acreditam que o ritmo da escola e a cultura escolar está totalmente fora de sintonia com a sociedade na qual vivem.

    As escolas são irrelevantes porque a sociedade não acredita mais nelas, mas não por achar que estejam defasadas em relação às demandas dos novos tempos, mas porque não há valorização social. Elas perderam o sentido.
    É a famosa crise de valores.

    Até há algum tempo, estudava-se para “progredir na vida”, e garantir um bom emprego. Isso não existe mais. Estudar não garante mais coisa alguma. As pessoas se formam e não conseguem trabalhar na área para a qual se prepararam. Paralelamente, há toda uma exaltação de que basta “participar” do Big Brother para se ficar rico e famoso e, conseqüentemente, “se dar bem na vida”. Então, para que estudar?

    Esse “estado da arte” aliado a um gigantesco fosso que separa a escola – que ainda está parada no sec. XIX – do resto do mundo que não pára de se movimentar, é que a torna irrelevante.

    É por isso que a Educação tem que ser levada mais e mais a sério!

    Temos coisas demais para recuperar. Para retomar o sentido da escola será necessário um esforço consciente, radical e coletivo.

    Creio, sinceramente, que a chegada dos laptops nas mãos de nossos alunos e professores é uma excelente oportunidade para dar início a esse processo de mudança. O desconforto e a discussão que as pequenas máquinas já estão causando são detonadores dessa história.

    É uma maneira de se começar!

    Um grande abraço a todos

    Denise

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  5. Rodrigo Lara Mesquita comentou em: 11/04/2008 17:05

    As crianças precisam ser ouvidas

    Vivemos num mundo totalmente conectado. As crianças amadurecem numa velocidade assustadora. A tv, o rádio, a rede, as ruas das nossas cidades atolam as cabeças delas com informação. O mundo com todas as suas coisas boas e más chegam a elas por todos os lados. Mas os educadores e os responsáveis pela educação não perguntam para as crianças o que elas acham do sistema educacional, o que elas gostariam de ter, não se abrem para uma conversa franca e aberta.


    Qual a última vez que você viu uma matéria josnalística levantando esta questão da perspectiva das crianças? Eu não me lembro de nada assim nos últimos anos. Não acho que esta questão devria ficar restrita a teóricos e políticos. Deveríamos usar os recursos que estão nas nossas mãos para envolver as crianças nesta conversa. Trazer a visão delas para a sociedade como um todo.

    Vocês discordam disso?

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  6. Paulo Drummond comentou em: 12/04/2008 00:07

    Para os adultos em geral, as crianças são irrelevantes

    Para os adultos em geral (políticos, jornalistas, "professores do século 19"...), crianças são irrelevantes!

    A Educação, para muitos políticos é apenas discurso, uma constituinte de plataformas eleitorais. Para administradores públicos, em geral, Educação é meramente uma obrigação chata, muitos deles fazendo tudo para tão somente cumprir o que está na Lei. Muitos desses muitos nem isso. Para jornalistas, Educação é restrita a custo e vestibular; matérias que aparecem com regularidade nos fins e inícios dos anos letivos. Para "professores do século 19", criança é uma cabeça ôca que tem que ser entupida de informação retrógrada e inútil, de acordo com preceitos engessados pela própria sociedade.

    À criança não é dada a oporunidade de expressão. Até agora. Com a chegada de projetos como o UCA, uma mudança pode (e deve) acontecer. Esperamos que as crianças venham a ter "voz ativa", por conta de uma forma nova de Educação. Uma forma que permita — e estimule — a criatividade, o pensamento crítico e uma formação de gente mais ativa, mais participante e colaborativa.

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  7. Rodrigo Lara Mesquita comentou em: 12/04/2008 13:20

    Cadê as crianças?

    Eu queria ver as crianças falando sobre as escolas, os professores, o currículo, a metologia, a divisão por idades toda a trolha que impomos a elas como se tivéssemos o direito de moldá-las conforme as nossas cabeças e visão de mundo. Uma alternativa seria os professores trazerem isso à tona. Mas isso é muito arriscado. Não é?

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  8. Lizardo Nunes comentou em: 12/04/2008 13:25

    Respondendo às perguntas...

    Em primeiro lugar, acho razoável que as crianças sejam separadas em turmas por faixa etária. Não sou psicólogo e nem especialista, mas pelo pouco que li, as crianças parecem desenvolver aptidões e habilidades específicas em torno de idades específicas. Portanto, é razoável que as salas de aula sejam formadas por grupos com a mesma faixa etária.

    Sobre o currículo linear, depois de ler o estudo "How the world's best-performing school systems come out on top", da McKinsey & Company (vocês acham o PDF na rede), aprendi que países como a Finlândia não têm um currículo rígido, mas que são delineadas apenas as habilidades e competências que a criança terá de atingir depois de passar por uma série. Cabe ao professor encontrar o caminho para atingir os objetivos desejados.

    Essa idéia está presente no PCN+ (que também se acha na rede), que define as competências e habilidades que os alunos deverão obter após passar por cada série do ensino médio. --- Embora eu tenha algumas restrições com relação ao PCN+ de Física (Mas isso é assunto para um outro tópico.) ---O PCN+ sugere alguns possíveis roteiros e propõe alguns temas estruturantes, mas não é um currículo rígido.

    Entretanto, até o momento, não vi nenhum exemplo de curso ou material didático sendo aplicado em alguma escola que siga essas metodologias e consiga aliar em seu escopo o rigor científico necessário.

    Porém, já vi alguns exemplos de ensino baseado em projetos, que tem um forte caráter interdisciplinar, mas nada que realmente me encha os olhos.

    Por outro lado, olhando os cursos abertos nas Universidades de Yale, ou do MIT, vejo que os cursos universitários continuam sendo rígidos e lineares. Separados em tópicos: com ementa, cronograma e uma série de livros-texto. Foi assim que aprendi e é assim que sei ensinar...

    Mas é claro que estou aberto para ver novas idéias e implementar novas metodologias. Contanto que sejam boas.

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  9. Denise Vilardo comentou em: 13/04/2008 01:47

    + um pouco

    Já disse por aqui outras vezes.

    Precisamos caminhar com o carro e tirá-lo do atoleiro ao mesmo tempo...

    Nesse momento, ao perguntarmos aos alunos o que eles querem, eles não saberão dizer, porque estão tão "formatados" que não têm noção das possibilidades... vão nos dar as respostas que eles acreditam que queiramos ouvir... porque têm sido adestrados para isso, desde sempre.

    Mas... uma boa dica, talvez seja propormos o contrário: perguntarmos o que eles não querem mais na escola... pode ser que, a partir do que não gostam, tenhamos pistas para construir uma escola mais conseqüente e coerente.

    Quanto à organização por idade e séries, a Escola da Ponte, lá de Portugal, já trabalha há cerca de 20 anos, com os alunos de diferentes idades, trabalhando por projetos.

    Eles "obedecem" ao currículo oficial de maneira bastante flexível, organizando as temáticas por áreas do conhecimento, em que os alunos vão se engajando de acordo com os seus interesses. Mas todos têm que passar por tudo em algum momento.

    Pra saber mais um pouquinho... http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2132&cd_materia=1123

    Como o Lizandro salientou, nada que não possamos fazer por aqui, uma vez que os nossos Parâmetros Curriculares Nacionais são bastante abertos.

    Algum material também pode ser visto, Lizandro, no wiki da OLPC: http://wiki.laptop.org/go/The_OLPC_Wiki/lang-pt

    Tenho trabalhado com propostas curriculares a minha vida inteira e, certamente, cada vez mais essas idéias de maior mobilidade se fazem presentes.

    Temos que perder o medo de ousar e, volto a dizer mais uma vez, a Academia é o espaço mais tradicional nessa história toda. E é lá que nossos professores são formados... com medo.

    Um grande abraço!

    Denise

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