Denise Vilardo comentou em: 07/05/2008 15:35
Laptops podem acabar com a pobreza
26 novembro de 2006 - O Estado de São Paulo
Primeiro computador de US$ 100 do programa Um Laptop por Criança foi entregue na sexta-feira ao presidente Lula. Entrevista com Nicholas Negroponte, presidente da OLPC
Por: Renato Cruz
O professor Nicholas Negroponte, co-fundador do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT), escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a primeira pessoa a ganhar um laptop de US$ 100. 'De todos os países, o Brasil sempre me pareceu o mais genuinamente preparado e entusiasmado (com o projeto)', disse Negroponte, em entrevista ao Estado na sexta-feira, logo depois do encontro com o presidente. Autor de A Vida Digital, Negroponte está à frente da associação sem fins lucrativos Um Laptop por Criança (OLPC), que tem como objetivo levar computadores portáteis de baixo custo a estudantes de países em desenvolvimento. O objetivo é produzir de 5 milhões a 10 milhões de máquinas no próximo ano. Além do Brasil, o professor negocia com Argentina, Líbia, Nigéria e Tailândia. A seguir, trechos da entrevista.
Como foi o encontro com o presidente Lula?
Foi profundamente interessante e animador. Eu o encontrei em junho de 2005 e ele foi o primeiro chefe de Estado a expressar entusiasmo suficiente, o que nos levou a ir em frente com o projeto. Seu interesse nos deu muito estímulo. Meu principal motivo foi agradecê-lo. Ele é a primeira pessoa no mundo a ter o laptop.
Quando os laptops serão produzidos em larga escala?
O lançamento real deve acontecer em julho, mais ou menos. Uma empresa normal nunca lançaria um produto no estágio em que estamos. Eles testariam internamente por pelo menos mais duas ou três gerações. Estamos oferecendo uma máquina bem instável, para termos avaliações rapidamente, no lugar de mais tarde.
O senhor anunciou que os servidores para o projeto serão produzidos aqui.
É uma idéia muito nova. Um motivo para fazer isso é que podemos. Uma razão muito boa. Lançaremos uma concorrência nos próximos dias, e as pessoas terão de entregar suas propostas em algumas semanas, para que possamos começar em janeiro. No primeiro ano, serão de 25 mil a 50 mil servidores. Será preciso um servidor para cada grupo de 200 ou 300 crianças.
Existe a possibilidade de os laptops serem montados aqui?
Sim. Não é um negócio muito interessante. Os servidores são mais interessantes, pois dão a possibilidade de desenvolver a engenharia e o projeto. Normalmente, se alguém quiser fazer um equipamento barato, pega mão-de-obra barata, componentes baratos e um projeto barato. Tentamos fazer exatamente o oposto. Usamos uma integração muito avançada. Colocamos elementos químicos de um lado e temos milhões e milhões de produtos saindo do outro lado. É mais como um iPod. Os iPods não são fabricados aqui. A oportunidade econômica real está no software e no projeto da nova geração de laptops.
O presidente Lula disse que trabalha duro com vocês para o preço chegar a US$ 100. Como isso vai acontecer?
Existem duas maneiras de chegar aos US$ 100. Uma é só acompanhar a curva de preços. A outra é inventar novas tecnologias, para reduzir o preço da tela, da placa. E estamos fazendo as duas coisas. É importante entender que, nesta indústria, quando lançam um produto, um celular, um laptop, a cada ano o preço cai naturalmente. Para manter o preço alto, eles acrescentam recursos. Seu telefone celular hoje tem uma centena de recursos que não tinha há dois anos, e o preço é mais ou menos o mesmo. Faremos o oposto. Não iremos acrescentar recursos, para o preço cair. Não é uma prática de negócios comum, e nos levará não somente aos US$ 100, mas abaixo.
Quanto tempo vai demorar para atingir a meta de US$ 100?
Temos dito que será no fim de 2008. Precisamos de dois anos para chegar lá. Se olhar minha apresentação do ano passado, eu já dizia que seria em dezembro de 2008. O preço inicial será de US$ 150, US$ 148.
Parece que o senhor criou um novo mercado, porque a Intel também anunciou um projeto de laptop de baixo custo e outras empresas tentam seguir.
Estou muito satisfeito. A entrada da Intel, para nós, é uma expressão da confiança deles na idéia. No entanto, eles encaram isso como um mercado. A Intel e outras empresas são muito tradicionais na sua visão da educação. Eles olham a partir do ponto de vista do diretor da escola, do professor e do que as pessoas chamam material educacional, apoio educacional e conteúdo educacional. Nós adotamos um ponto de vista diferente: o a da criança.
Não parece ser fácil enfrentar empresas como a Intel e a Microsoft.
A maneira como eles estão combatendo é um pouco surpreendente. É engraçado, porque normalmente essas coisas são simétricas. Eles nos vêem como competidores, mas nós não os vemos dessa maneira. Estamos num esforço humanitário para que o maior número de crianças consiga um laptop.
Qual seria o maior impacto para um país como o Brasil do programa OLPC?
O impacto de longo prazo seria o fim da pobreza. O impacto de curto prazo seria mudar a educação, incentivando o apoio ao professor e a motivação e a participação das crianças. O Brasil é muito bom para isso, porque o tema da inclusão é muito brasileiro. Em alguns países, temos de argumentar para que as crianças levem os laptops para casa. No Brasil, as pessoas pensam que não poderia ser diferente.
Como vai o projeto em outros países?
De todos os países, o Brasil sempre me pareceu o mais genuinamente preparado e entusiasmado. Seria justo dizer que a Argentina é parecida. A Líbia é um caso especial, porque um homem dirige o país. A Tailândia está mudando seu sistema político. A Nigéria é um país caótico, um país muito tribal. Nossa expectativa na Nigéria é diferente.
Quando o senhor começou o projeto, pensou que seria mais difícil ou mais fácil?
Sabia que seria difícil. Eu subestimei a resistência dos interesses comerciais existentes. Eu superestimei o desafio de criar um laptop de US$ 100. Eu subestimei a dificuldade de criar um equipamento com consumo baixo de energia. E acho que superestimei a reação dos professores. Muitas pessoas achavam que haveria resistência dos professores, e estamos vendo o oposto.
Qual é a sua opinião sobre o setor de tecnologia hoje?
A era digital acabou. Não é mais uma revolução, é uma cultura. A revolução vem agora de áreas como biotecnologia e nanotecnologia. As crianças não pensam mais nisso como uma cultura digital. Para elas, é natural.
Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2006/11/26/eco-1.93.4.20061126.23.1.xml
Nenhum comentário:
Postar um comentário